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01/02/2019 - O GLOBO - DELEGACIAS DA ZONA SUL SÃO CASO DE POLÍCIA

Em péssimo estado, delegacias da Zona Sul do Rio são caso de polícia

Ao visitar 17 unidades nas zonas Norte e Sul e no Centro, O GLOBO constatou que público tem de lidar com banheiros interditados, recepções sem água e ar-condicionado, infiltrações, mau cheiro e até infestação de ratos

David Barbosa* e Isabela Aleixo*

01/02/2019 - 04:30

Ao visitar 17 unidades nas zonas Norte e Sul e no Centro, O GLOBO constatou que público tem de lidar com banheiros interditados, recepções sem água e ar-condicionado, infiltrações, mau cheiro e até infestação de ratos Foto: Pedro Teixeira / Agência O GLOBOAo visitar 17 unidades nas zonas Norte e Sul e no Centro, O GLOBO constatou que público tem de lidar com banheiros interditados, recepções sem água e ar-condicionado, infiltrações, mau cheiro e até infestação de ratos Foto: Pedro Teixeira / Agência O GLOBO


RIO - Banheiros interditados, portas fechadas com fita adesiva, cadeiras rasgadas e sem encosto, luzes piscando, infiltrações, paredes descascadas e até ratos. Esse é o cenário encontrado nas delegacias da cidade do Rio. Durante dois dias, duas equipes do GLOBO visitaram 17 unidades das zonas Norte e Sul e do Centro, e constaram a precariedade da estrutura física.

Na Zona Sul, falta tudo. Todas as delegacias da região estão com banheiros interditados. Na 15ª DP, na Gávea, a situação é uma das piores. Falta água e há duas pias quebradas. O mau cheiro toma conta do ambiente. Do lado de fora, mato alto cobre parte do pátio e se tornou um atrativo para ratos, que costumam passear pelas instalações.

Bancos rasgados

Assim como a Gávea, nenhuma das outras seis delegacias da Zona Sul tem banheiro em condições de uso. Na Zona Norte, de nove delegacias visitadas, seis estavam com banheiros fechados. Na 26ª DP (Todos os Santos), havia um aberto, mas a porta de um outro estava lacrada com fita adesiva.

A demora no atendimento, alvo de muitas reclamações, fica ainda mais difícil porque os bancos disponíveis não oferecem qualquer conforto. Na 15ª DP (Gávea), na 9ª DP (Catete) e na 28ª DP (Campinho), a maioria dos assentos não tem encosto. Na 12ª DP (Copacabana), as cadeiras estavam com estofamento rasgado.

Quando chove, é bom preparar guarda-chuva para se proteger de goteiras na 44ª DP (Inhaúma). Policiais contaram que os buracos no telhado provocam a formação de poças. A água que entra por um localizado bem em cima da escada deixa os degraus escorregadios. E o problema ameaça o acervo cartorário, que fica no segundo andar da unidade.

Em dias de temporal, é um corre-corre para levar os documentos para um lugar seco. As vigas do teto já estão enferrujadas, e parte do piso de madeira do segundo andar, apodrecido, afundou.

Nas delegacias do Méier (23ª DP) e de Bonsucesso (21ª DP), infiltrações, causadas pela falta de impermeabilização, marcam as paredes. E, mesmo com sol, é sempre tempo ruim.

Com o único ar-condicionado da recepção funcionando mal há aproximadamente um mês, a 21ª DP virou um martírio tanto para quem tem que registrar uma queixa quanto para os atendentes. Na 23ª DP, dois dos três aparelhos estavam parados, na quinta-feira, por problemas técnicos, segundo policiais. Pelo menos, havia água para amenizar o sufoco. No entanto, não havia abastecimento em quatro das nove delegacias da Zona Norte visitadas, onde sequer os bebedouros das recepções funcionavam. A “seca” foi constatadas nas unidades de Todos os Santos (26ª DP), Vicente de Carvalho (27ª DP), Campinho (28ª DP) e Madureira (29ª DP).

Faltam até algemas

Além da falta de estrutura física adequada, o atendimento ao público é outro problema das delegacias. Em Inhaúma, apenas um agente fazia boletins de ocorrência no balcão. Quinta-feira, a longa espera acabou levando pessoas a irem embora. O mesmo aconteceu na 14ª DP (Leblon). Vale lembrar que, na delegacia da Zona Sul, duas semanas atrás, não havia algemas para prender suspeitos de praticar sequestros-relâmpago na Rua Dias Ferreira.

Por ordem do diretor do Departamento Geral de Polícia da Capital, delegado Allan Turnowski, agentes da 14ª DP pediram algemas emprestadas a PMs.

— Recebemos várias delegacias em péssimas condições. Apesar do caos, é possível recuperá-las. O que mais nos preocupa é a falta de motivação dos policiais — disse Turnowski.

Com a criação do programa Delegacia Legal, em 1999, o primeiro atendimento ao público deixou de ser função dos policiais — esse serviço passou a ser feito, de maneira terceirizada, por psicólogos, assistentes sociais e estagiários. Mas, segundo o presidente do Sindicato dos Policiais Civis (Sinpol), Fernando Bandeira, a situação mudou.

— Cada delegacia tinha, no mínimo, duas pessoas para o atendimento, o que deixava o policial livre para se dedicar à apuração dos crimes. Agora, o agente precisa ficar no balcão.

A Polícia Civil não informou se tem planos para reformar as delegacias listadas na reportagem.

* Estagiários, sob a supervisão de Leila Youssef